29 de janeiro de 2025

Não resista

Ela costurou sua própria vida e ficou muito agradecida porque a servia completamente.

Não resista à sua vontade. Não resista a querer saber mais do que já sabe.

Não resista a ir por esses caminhos que você nem sabe direito onde vão dar.

Não resista porque resistir é o que está te cansando tanto. Não é fazer — você dá conta de fazer muito.

Ao invés de resistir, mergulhe.

Quantas vezes você já ouviu: "nossa, amiga, estava pensando em te ligar". Quantas vezes você também já pensou em ligar e não ligou. Quantas festinhas você pensou em fazer e não fez. Quantas coisas fora da rotina você já pensou em fazer e desistiu. Quantos sonhos você já parou de sonhar. A gente vai criando uma armadura com a idade. Mas podemos também nos livrar dela.

Li um livro chamado What Alice Forgot, que conta a história (fictícia) de uma mulher que sofreu uma queda e perdeu a memória aos 39 anos de idade. Ela acordou como se tivesse 29. E passou a olhar a vida com os olhos dessa idade. Não entendeu nada a forma como o marido a tratava, com tanta aspereza. Não entendeu nada a forma como a irmã a tratava, com uma certa raiva, inveja, competição. Para ela, as coisas podiam ser bem mais simples.

Um dos momentos mais lindos do livro é quando a filha mais velha dessa personagem faz uma coisa errada na escola e os pais são chamados. O pai chega todo apressadinho, estressadinho, o diretor conta o que aconteceu, a mãe toma a liderança e fala que vão resolver aquilo em família. A menina fica super assustada. O pai fala que não pode ficar nem mais 5 minutos ali, mas ela provoca um abraço coletivo entre os três e leva marido e filha para comerem um sorvete. Algo completamente inapropriado, mas magicamente necessário. Esse é o momento onde a família se restabelece. Onde ela para de julgar sua vida com 39 anos, para de ficar só lembrando com nostalgia da vida de 29 anos, e faz as duas viverem juntas.

A gente cresce aprendendo que é preciso lutar para vencer. No pain, no gain. Nesse clima, vai ficando todo mundo bastante cansado. O efeito colateral dessa prática é a competição. Ela aparece na vida adulta a todo momento. Se você está na academia, devia estar trabalhando; se está trabalhando, devia estar com os filhos. Onde será que os outros estão ganhando de você? Corre! Será que é assim que precisamos viver? O que deu de errado com aquela ideia de vida mais coletiva, menos preocupada, mais prazerosa dos 29 anos?

Vamos endurecendo tanto que até os sentimentos são julgados. "Está cansada? Mas por quê?" "Está casada e infeliz? Mas por quê?" "Quer casar? Mas por quê?" "Quer separar? Por quê?" A partir de quando começamos a precisar justificar os sentimentos? Qual o problema em apenas recebê-los? Perceber que eles estão ali, não estão avisando que vão chegar ou pedindo permissão. Eles estão. E isso é motivo suficiente para serem recebidos.

A vida adulta não é feita só das coisas que a gente tinha aos 29 anos, mas nada impede que a gente lembre que a vida pode ser mais leve. Que não tem nada de errado em acreditar — nas ideias, nas pessoas, nos sentimentos. Que super racionalizar não é a solução para tudo. Que não tem nada de errado em ser mais leve e se preocupar menos, bem menos, com o que os outros pensam.

Esse livro me deu um lindo presente que quero compartilhar com todos. Dizem que nunca é tarde para mudar, né? Pois também nunca é tarde para reconhecer que o que você foi um dia está aí dentro, em algum lugar. E se esse alguém te fazia feliz, não hesite em resgatá-lo.

Não resista. Mergulhe.