29 de janeiro de 2025
Com pais infantis qual é o lugar da criança?
O texto que segue é o resumo de um trabalho que escrevi na formação em psicanálise. Espero que gostem. Minha proposta é refletir sobre o sintoma das famílias atuais que vivem obcecadas pela ideia de perfeição. Não é pouco representativo que drogas como Ritalina e Concerta tiveram aumento de vendas de 775% nos últimos anos, segundo o Ministério da Saúde.
Antes de se chegar ao ponto de querer ver crianças calmas ou "consertadas", pode-se observar também uma geração que quer oferecer aos bebês uma vida "perfeita". Uma vida sem frustrações. Será que isso existe? Será que é realmente bom para o bebê ser apresentado a um mundo onde tudo acontece como ele — sua majestade — deseja?
Aqui vem uma pequena surpresa do texto, porque estamos acostumados a chamar de "infantil" aquela pessoa que gosta de brincar, de dar risada. Mas infantil aqui é outra coisa: é a ideia infantil de querer que tudo seja perfeito. Adultos são aqueles que já entenderam que não existe perfeição.
Então a partir de agora vamos pensar na perspectiva de um adulto. Uma pessoa que já entendeu também que a vida não é tudo preto ou branco. (Não entre em pânico achando que só você não virou adulto: do ponto de vista da psicanálise, a maioria de nós não é adulto, mas podemos trabalhar para isso.) O adulto sabe que entre o preto e o branco tem sempre um pouquinho de bege, de violeta, alguma coisa misturada.
Então quando falo para o bebê não ser tratado o tempo todo como majestade, também não estou sugerindo que aquele ser que acaba de chegar fique chorando a noite inteira sozinho no berço. Vamos pensar em todas as cores que existem. Por exemplo, a livre demanda na amamentação. Não quero contrariar os dados da Organização Mundial de Saúde que mostram os benefícios primordiais da amamentação. Não pode haver dúvidas sobre isso. Vamos apenas refletir. A psicanálise se baseia um pouco nas regras da física. Ou seja: se temos uma relação de dois e um deles está se colocando no lugar de dar livre demanda ao outro, este que dá fica com sua própria demanda represada. Se a demanda do outro é livre e atua com máxima autoridade sobre a minha vida, então a minha demanda não tem lugar nenhum. O que pode ser correto, importante e muito bonito, por algum tempo, mas não durante anos — de novo o preto e o branco.
Eu fiz livre demanda com meus filhos. Meu primeiro filho era um bebê que chorava muito e acredito que essa foi a maneira que conseguimos. Mas tive a grande sorte de ter um pediatra — a mesma pessoa que me incentivou e me convenceu de que devia fazer livre demanda — falar que eu devia parar de amamentar quando ele fizesse 1 ano e 3 meses.
Sei que o tema é delicado. Não quero entrar na polêmica. O que quero é exatamente o contrário: abrir uma reflexão para o tanto que estamos — como geração — criando polêmicas, grupos, lados. No caso da maternidade, conheço mães maravilhosas que simplesmente não conseguiram amamentar. A vida também é aquilo que acontece com a gente, não é? Não é só o que queremos.
Quando entendemos que nada é perfeito, cobramos menos de nós mesmos e de nossos filhos. Precisamos assumir, como adultos que somos (em idade pelo menos), que já vivemos o suficiente para saber que não existe o grupo dos bons e o grupo dos maus. Isso é infantil e narcisista. Pode ter certeza: quando uma mulher começa a fazer um belo discurso sobre a amamentação é porque ela teve condições — físicas, emocionais e financeiras — para fazer isso. Mas ela não enxerga isso, e o que fica claro para quem está ouvindo o discurso é "existe o grupo dos bons (mães que amamentam) e dos maus (mães que não amamentam)". E em qual grupo você acha que ela se inclui?
Ser mãe, ser pai é uma oportunidade maravilhosa de evoluir. De virar adulto. Educação é auto educação. Por isso é tão importante refletir, se questionar. Ao invés de querer respostas, se fazer perguntas. Aqui vão algumas: qual é o propósito de viver obcecado com a ideia de dar perfeição aos filhos? Qual será a consequência de se viver a primeira infância (e não só) sob essa falsa mensagem de perfeição?
Como disse Rubem Alves: "Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu." Pois então qual será a imagem da vida que terão depois de receber essa apresentação feita através dessa lente de pretensa perfeição? Podemos pensar que essa ansiedade é interna dos pais e apenas projetada nos filhos. Com isso vamos enxergar que por detrás dessa lente que só quer ver abundância e maravilha existe um espelho côncavo, um vazio interno dos pais. Então a qual dos lados estarão essas crianças olhando?
Como disse a psicanalista Julieta Jerusalinsky: "poderíamos trocar a palavra culpa por responsabilidade".
Talvez por trás de pais que dão em excesso existam pais que oferecem um excesso de nada. A vida das crianças é preenchida com coisas, eventos e atividades enquanto os adultos responsáveis estão ansiosos com o silêncio que reside no seu mundo interno. Os pais talvez estejam tão inseguros com o senso de valor próprio e fora de contato com seu próprio ser que compensam esta lacuna criando a ilusão de perfeição através das crianças. Esta implacável projeção das ansiedades internas nas crianças faz com que elas paguem um preço muito caro.
É bastante comum a gente ouvir "eu prefiro pecar pelo excesso que pela falta". O que eu tenho visto nos seminários clínicos que participo é que o excesso algumas vezes é pior do que a falta. Pois em psicanálise sabemos que é a falta que produz seres desejantes. Onde não há falta, não há desejo.
No meio do século XX, o psicanalista inglês Donald Winnicott inventou uma frase para ajudar pacientes ansiosos que estavam fazendo o melhor que podiam, mas que se preocupavam constantemente sobre estarem longe de serem pais perfeitos. O real objetivo, disse Winnicott, não era ser ideal em todos os sentidos, mas apenas ser "bom o suficiente". Segundo o autor, uma criança não precisa de um pai perfeito. Ela precisa de um pai ordinário, um tanto falho e bem-intencionado. Isso será bom o suficiente.
Winnicott reassegurava pais torturados por um ideal inatingível: pessoas que estavam julgando duramente as próprias vidas e a si mesmos por parâmetros que jamais poderiam alcançar. E — ironicamente — esses tipos corriam o risco de ser pais menos calorosos e naturais porque estavam constantemente ansiosos sobre não serem perfeitos. Winnicott estava dizendo que relações humanas podem parecer bem ruins e, ainda assim, estar indo bem, considerando a regra.
Termino com uma citação que pode nos indicar uma melhor saída para esse alto índice de crianças medicadas na nossa sociedade:
Lacan constata na clínica que o lugar da criança na estrutura familiar é sempre um lugar sintomático. A criança é alvo de projeção dos ideais, das frustrações e dos problemas dos pais. Conclusão: o lugar do sintoma é a criança e o lugar da doença (causa) está nos pais.
E algumas palavras de Guimarães Rosa, porque elas sempre acalmam:
Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza. Quero todos os pastos demarcados. Como é que posso com este mundo? Este mundo é muito misturado.